Fraudes no Leite: Testes Práticos para Detecção na Plataforma de Recebimento

O leite é um alimento fundamental na dieta global, sendo uma das matérias-primas mais importantes para a indústria de alimentos.

Devido a sua alta perecibilidade, ele se torna um alvo frequente para a ocorrência de fraudes, que visam aumentar o volume, mascarar a má qualidade ou estender o prazo de validade. Tais práticas ilícitas não apenas prejudicam economicamente a cadeia produtiva, mas representam um sério risco à saúde pública.

Para garantir a segurança e a integridade do leite que chega ao consumidor, o controle de qualidade na plataforma de recebimento é a primeira e mais crítica linha de defesa. Neste ponto, decisões rápidas e precisas devem ser tomadas para aceitar ou rejeitar o produto, e os testes para detecção de fraudes desempenham um papel central nesse processo.

Este artigo visa detalhar a importância, a legislação e as principais metodologias analíticas que podem ser aplicadas a rotina do laboratório de recebimento.

teste de fraude no leite neutralizantes
Imagem: Arquivo pessoal

O Cenário Regulatório Brasileiro: IN 76/2018 e IN 77/2018

A legislação brasileira, através do MAPA, estabelece critérios rigorosos para a produção, identidade e qualidade do leite. Duas Instruções Normativas (IN) publicadas em 2018 são pilares no controle da qualidade: a IN 76/2018 e a IN 77/2018.

A Instrução Normativa n° 76, de 26 de novembro de 2018, define os Padrões de Identidade e Qualidade do leite cru refrigerado, pasteurizado e do leite UHT. A fraude, por sua natureza, representa uma violação direta desses padrões.

O Art. 6° da IN 76/2018 é taxativo ao determinar as condições de aceitação do leite cru refrigerado:

” Art. 6º O leite cru refrigerado não deve apresentar substâncias estranhas à sua composição, tais como agentes inibidores do crescimento microbiano, neutralizantes da acidez e reconstituintes da densidade ou do índice crioscópico.”

O Art. 31 da IN 77/2018 reforça o papel do controle na plataforma:

” Art. 31. O estabelecimento deve realizar o controle diário do leite cru refrigerado de cada compartimento do tanque do veículo transportador, contemplando as seguintes análises:

VIII – pesquisas de neutralizantes de acidez;

IX- pesquisas de reconstituintes de densidade ou do índice crioscópico; e

X – pesquisas de substâncias conservadoras.”

Estes artigos constituem o fundamento legal para a realização dos testes de fraude. Ele impõe a obrigatoriedade de verificar a presença de substâncias adicionadas com fins ilícitos, como neutralizantes de acidez, conservantes ou antibióticos (que não são uma fraude intencional, mas uma contaminação grave que deve ser detectada e descartada).

Portanto a combinação entre a IN 76/2018 e a IN 77/2018 delega à indústria a responsabilidade de implementar um plano de amostragem robusto e utilizar metodologias analíticas adequadas para garantir que as proibições do Art. 6° da IN 76/2018 sejam cumpridas. É a base legal que exige um programa de testes contínuo e eficaz contra fraudes na linha de recepção.

Metodologias analíticas que podem ser aplicadas a recepção de leite

Existem diversas metodologias de análise para detecção de fraudes na indústria de lácteos, algumas demandam muito tempo e vários reagentes, diferentemente de outras que podem perfeitamente ser aplicadas a rotina diária do laboratório.

Abaixo trago algumas metodologias de análise de fraudes que podem ser facilmente incorporadas a rotina do laboratório de recebimento de leite.

1. Neutralizantes de Acidez: Mascarando a Deterioração

O leite com alta acidez (pH baixo) indica deterioração microbiológica. Para evitar o descarte, fraudadores adicionam substâncias alcalinas que elevam o pH, “neutralizando” a acidez. O principal suspeito é o bicarbonato de sódio e soda caustica.

FraudeObjetivoMetodologia AnalíticaReferência
Soda Caustica e Bicarbonato de sódioAumentar o pH do leite ácido, mascarando a má qualidade.Método utilizando ácido rosólico: Teste indica presença de neutralizantes na amostraGONÇALVES, Luiz Carlos. Métodos Físico-Químicos para Controle de Qualidade em Leite e Produtos Lácteos. Minas Gerais. 1° Edição, 2020.

2. Reconstituintes de Densidade: Compensando a Diluição

A fraude mais comum é a adição de água, que dilui o leite, aumenta o volume e, consequentemente, diminui a densidade e o teor de sólidos. Para compensar a baixa densidade e disfarçar a adição de água, são adicionadas substâncias que elevam artificialmente a densidade, como: sal de cozinha (NaCl) e açúcar (sacarose).

FraudeObjetivoMetodologia AnalíticaReferência
SalAumentar a densidade do leite diluído mascarando outra fraudeCloretos: Baseia-se na reação do nitrato de prata (AgNO3) com os cloretos (Cl-), em presença de cromato de potássio (K2CrO4) como indicador. Quando o teor de cloretos é elevado, haverá maior consumo de nitrato de prata, diminuindo a intensidade da coloração marrom e tornando-se amarela.GONÇALVES, Luiz Carlos. Métodos Físico-Químicos para Controle de Qualidade em Leite e Produtos Lácteos. Minas Gerais. 1° Edição, 2020.
SacaroseAumentar a densidade do leite diluído mascarando outra fraudeA resorcina em meio ácido condensa-se formando composto de coloração vermelha.  INSTITUTO ADOLFO LUTZ. Normas Analíticas do Instituto Adolfo Lutz. v. 1: Métodos químicos e físicos para análise de alimentos, 3. ed. Sao Paulo: IMESP, 1985
AmidoAumentar a densidade do leite diluído mascarando outra fraudeO aquecimento do leite promove a abertura da cadeia helicoidal da molécula do amido presente, permitindo a adsorção do iodo, com o desenvolvimento da coloração característica após resfriamento.  INSTITUTO ADOLFO LUTZ. Normas Analíticas do Instituto Adolfo Lutz. v. 1: Métodos químicos e físicos para análise de alimentos, 3. ed. São Paulo: IMESP, 1985.
Álcool EtílicoAumentar a densidade do leite diluído mascarando outra fraudeO objetivo é detectar a presença de álcool etílico (etanol) adicionado ao leite como forma de compensar a fraude com água e não ser detectável pelo índice crioscópico. Em presença de álcool e em meio acidificado ocorre a redução do cromo resultando na mudança de cor da solução sulfocrômica.  GONÇALVES, Luiz Carlos. Métodos Físico-Químicos para Controle de Qualidade em Leite e Produtos Lácteos. Minas Gerais. 1° Edição, 2020.  

3. Conservantes: Proibidos e Perigosos

Os conservantes são adicionados para inibir ou eliminar o crescimento microbiano, estendendo a vida útil do produto. São extremamente perigosos, pois podem mascarar a contaminação e a má qualidade, além de serem prejudiciais à saúde humana.

FraudeObjetivoMetodologia Analítica ReferenciadaPrincípio do Teste Rápido
Cloro e HipocloritoInibir o crescimento microbiano e estender a vida útil do leite.Formação de iodo livre a partir do iodeto de potássio pela ação do cloro livre ou hipocloritoGONÇALVES, Luiz Carlos. Métodos Físico-Químicos para Controle de Qualidade em Leite e Produtos Lácteos. Minas Gerais. 1° Edição, 2020.
Peroxido de hidrogênioInibir o crescimento microbiano e estender a vida útil do leite.A detecção de peróxido de hidrogênio (água oxigenada) no leite se dá pela formação de coloração salmão em presença de guaiacol. A enzima peroxidase (natural do leite) em quantidade suficiente antes da pasteurização, hidrolisa o peróxido de hidrogênio, liberando oxigênio e oxidando o indicador a tetraguaiacol (C28H24O8), responsável pela coloração característica. O método apresenta melhor desempenho em amostras de leite cru.GONÇALVES, Luiz Carlos. Métodos Físico-Químicos para Controle de Qualidade em Leite e Produtos Lácteos. Minas Gerais. 1° Edição, 2020.  

Otimizando o Fluxo de Trabalho na Plataforma de Recebimento

Para cumprir a exigência legal de um plano de amostragem eficaz (IN 77/2018), o laboratório de recebimento deve realizar diariamente e por comportamento do veículo transportador, pelo menos um teste de:

  • Identificação de neutralizantes de acidez,
  • Reconstituintes de densidade e
  • Conservantes no recebimento da matéria prima.

Ainda, conforme descrito no art. 34 da IN 77/2018:

“O conjunto dos métodos empregados para a realização das análises deve ser capaz de detectar diferentes tipos de neutralizantes de acidez, reconstituintes de densidade, substâncias conservadoras e contaminantes”

Ou seja, o estabelecimento não deve se ater somente a uma pesquisa de fraudes, mas sim realizar a pesquisa de varias delas. Desta forma, o estabelecimento pode lançar mão de cronogramas analíticos baseado em risco, que englobam os mais variados testes de detecção.

Conclusão

A luta contra a fraude no leite é uma questão de segurança do alimento, conformidade legal e justiça comercial. As Instruções Normativas do MAPA, em particular o Art. 6º da IN 76/2018 e o Art. 31 da IN 77/2018, estabelecem o regulatório para o controle rigoroso da matéria-prima, exigindo que o leite esteja livre de neutralizantes, conservantes e agentes inibidores.

Para atender à diretriz do Art. 34 da IN 77/2018 que exige métodos capazes de detectar diferentes tipos de adulterantes dentro de cada grupo de fraudes, o laboratório de recebimento deve operar com um sistema de controle de qualidade dinâmico e baseado em risco. Isso significa que, além das análises físico-químicas de rotina (como a crioscopia, essencial para detectar a água), a rotina analítica deve incorporar metodologias rápidas e específicas para triagem de neutralizantes (ex: ácido rosólico), reconstituintes de densidade (ex: cloretos, sacarose, amido e álcool etílico) e conservantes (ex: cloro e peróxido de hidrogênio).

A plataforma de recebimento é, portanto, a primeira e mais importante barreira sanitária.

Ao integrar um cronograma analítico robusto e utilizar essas técnicas de triagem de fácil execução, a indústria garante a integridade da matéria-prima, protege a saúde do consumidor e assegura a conformidade legal, fatores cruciais para a sustentabilidade e a reputação de toda a cadeia produtiva láctea. A vigilância contínua e o investimento em ferramentas de detecção de fraudes são ativos estratégicos inegociáveis no setor de laticínios.

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Veja também: Recebimento de leite: 4 testes de plataforma que custam pouco e salvam sua produção

Autor

  • Josiele Piazza

    Sou consultora em segurança de alimentos, formada em Ciência e Tecnologia de Laticínios pela (UFV) e pós-graduada em Sistemas de Gestão Integrado pelo SENAC. Ao longo da minha carreira, atuei em empresas de grande porte, onde tive a oportunidade de crescer profissionalmente e assumir cargos de gestão. Acredito que conhecimento técnico aliado à experiência prática é essencial para transformar realidades e garantir processos mais seguros e eficientes.
    Sou natural de Viçosa, MG, e tenho verdadeira paixão por conhecer lugares novos — viajar me inspira, renova minha energia e amplia minha visão de mundo.

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